Incorporação consciente e inconsciente
Ser médium inconsciente é ter seu livre arbítrio retirado, mesmo que por poucos instantes para determinado fim. Isto em meus estudos só se justifica pela pouca capacidade do médium de controle de seu veículo físico, geralmente estes médiuns são fisicamente debilitados e, como parte de um tratamento de regeneração mais profundo, são levados ao estado de inconsciência onde não existem travos conscientes às forças nele em ação.
Outros médiuns que dizem perder a memória de seus trabalhos não são inconscientes, no momento em que o trabalho está sendo executado ele também interage e está presente, porém por escolha ou por necessidade de ser preservado de alguma forma, tal lembrança lhe é arquivada, mas está lá se desejar e tiver o estudo e disciplina para saber acessar.
Médiuns conscientes o são por escolha, afinal outra em meu entendimento não há, seus trabalhos tem como um de seus objetivos "regrar a consciência menor para fazer nascer o novo homem em si" , tal só pode ser realizado por escolha através do diálogo consciente e produtivo estabelecido na relação com as entidades. Portanto não creio que possa admitir uma vivência plena da Umbanda médiuns inconscientes.
Todo o trabalho em Umbanda tem por objetivo levar a tudo e a todos a uma relação mais harmônica e fraterna, de união e unicidade, penetrar através do entendimento de si e do outro a consciência de Deus, tal se dá por ampliação da consciência e não por supressão da mesma, observe bem meu irmão que é difícil ver médiuns de constituição física desfavorável que o contrário na Umbanda, e mesmo estes mais frágeis quando incorporados ganham uma aura de força e firmeza admiráveis.
Posso falar disto com plena certeza pois a muitos anos quando tinha o Tarô como instrumento de trabalho, passava por tal fenômeno, durante a consulta com o outro eu sempre estava consciente e de pleno domínio de meu corpo, mesmo quando por raras vezes fui veículo para uma entidade no Tarô, nunca perdia a noção do que estava acontecendo e do que era dito, porém após alguns momentos a memória ia se dissipando até dela por vezes não restar nada.
Com o tempo aprendi que isso servia como um escudo de proteção para mim mas que poderia, se quisesse, retomar minhas memórias se delas fizesse uso construtivo de aprendizado.
Hoje quase nunca pego o baralho de Tarô e o trabalho na escola que abracei já me toma todo o esforço, mas ficou a experiência e o aprendizado.
Não estou com isso dizendo que não haja incorporação inconsciente na Umbanda, ela tem infinitos caminhos para o caminhante, estou dizendo que nunca conheci alguém assim ou soube de fonte confiável haver tal médium na Umbanda.
O estudo da meditação e da redução do ego, a humildificação pregada pelo Prof. Hermógenes, leva ao entendimento do que pode ser este afastamento da vontade, mas não da consciência de um médium, deixar um espaço vazio para que a Umbanda possa preencher, abandonar a mente e deixar-se navegar no silêncio e na imensidão do vazio de si dando o espaço necessário para o trabalho das entidades. Isto é incorporação consciente plena.
A única exceção ao que disse, é como aprendi e já vi e experimentei, muito embora não tenha muita convivência com o que narrarei, e o faço a luz dos ensinamentos que me foram passados por meu PDS, são as experiências mediúnicas provocadas por crimes contra a própria espiritualidade e a Umbanda.
Não a de Zélio, Benjamim Figueiredo, ou de Matta e Silva, do Tambor de Mina, do Omolokô, Branca, Negra ou com bolinhas, mas a Umbanda dos planos espirituais, aquela de que só temos visão parcial e restrita ao nosso fazer pessoal mas é muito maior e mais profunda.
Determinados crimes mediúnicos e contra as entidades criam em planos mais densos a incapacidade de desligamento entre os entes envolvidos, como se amarrados estivessem e permanecem em desenvolvimento paralelo, um sem poder negar ao outro, muitas vezes até sem um ter consciência do outro mas que em determinados momentos e em certas situações um "chama" o outro, tal se faz como uma punição, não é bem assim mas dá bem uma idéia aproximada.
O sujeito está no meio da rua e é tomado por uma entidade, começa a falar e fazer coisas sem sentido ou como se estivesse em um terreiro, do outro lado tal entidade não evolui enquanto estiver "amarrado" a este cavalo, ambos são criminosos e responsáveis em um determinado setor ou aspecto do trabalho espiritualista por um crime em comum, pagarão juntos no trabalho da Umbanda, e o principal trabalho é a consciência de seus crimes e a vontade verdadeira e disciplinada de reparar seu erro.
Nestes casos diz-se que o médium tem uma doença da alma e como tal deve ser tratada, o sentido de amarração e prisão está na supressão do livre arbítrio de ambos, que se faz a todos os níveis a princípio, posteriormente pode assumir a face de tentativa de mascarar seus próprios desejos primitivos transferindo para a entidade suas culpas: "não tenho culpa, não sabia o que estava fazendo".
No fundo, se não tem a consciência do que faz mas está em sintonia com o que é feito, e por crime original é responsável. Cabe a estes um caminho espinhoso de idas e vindas, de muitas "brigas" que a nada levam, mas que cumprem o trabalho de lapidação das almas e entendimento mutuo para o que deverá se tornar uma relação construtiva rumo a evolução espiritual no caminho da Umbanda entre médium e entidade.
Tal manifestação mediúnica pode ser confundida com a ação construtiva própria da Umbanda, é um engano, cumprem apenas sua prisão e devem ser tratados com cuidado, tal confusão pode levar a graves conseqüências a outros, além do agravo de seus crimes. Médium e ente astral devem ser doutrinados e vibrados para mudar sus condições.
Volto a dizer que desconfio muito de médiuns inconscientes na Umbanda, pois entendo ser ela caminho de ampliação consciente do ser.
Mas muitos são os caminhos, caminhantes e maneiras de caminhar.